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Curso sobre mulheres na Revolução une formação política e doação solidária a Cuba

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Curso sobre mulheres na Revolução une formação política e doação solidária a Cuba

O Movimento de Mulheres Olga Benario e o Observatório da América Latina e Caribe (Obalca) promovem, no próximo dia 28 de maio, um curso de solidariedade a Cuba com o tema “A participação das mulheres na Revolução Cubana: luta armada e emancipação política”. A atividade será realizada no Auditório C do CCHLA e contará com palestra da pesquisadora Dra. Larissa Riberti. Para participar, a organização solicita a doação de medicamentos, insumos hospitalares e produtos de higiene pessoal, que serão destinados ao consulado cubano.

Segundo a coordenadora do Movimento Olga Benario no RN e bolsista do Obalca, Malu Lima, a iniciativa surge em meio ao agravamento das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos à ilha caribenha. Ela afirma que o objetivo é combinar solidariedade concreta com debate político sobre soberania, anti-imperialismo e integração latino-americana.

“Desde 1962, Cuba sofre um embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, o que impacta diretamente o acesso a alimentos, medicamentos, combustível e outros itens essenciais. Em 2025, o governo Trump intensificou ainda mais as sanções e o bloqueio contra a ilha, aprofundando a crise de abastecimento”, explica.

De acordo com as organizadoras, mesmo diante das dificuldades econômicas, Cuba segue sendo referência internacional em áreas como saúde e educação. Elas destacam que o país desenvolveu vacinas próprias contra a Covid-19, como Abdala e Soberana, além de enviar apoio médico a outros países durante a pandemia.

A escolha de discutir especificamente o papel das mulheres na Revolução Cubana também tem relação com o entendimento de que elas ocuparam posições centrais nos processos revolucionários e nas transformações sociais posteriores à revolução de 1959.

“A experiência cubana demonstra como a participação feminina foi fundamental tanto na defesa da revolução quanto na construção de políticas sociais voltadas à educação, saúde, cultura e economia”, afirmam Malu e a pesquisadora Larissa Riberti.

Segundo elas, o debate busca evidenciar que as mulheres cubanas não atuaram apenas em funções de apoio, mas participaram diretamente da luta armada, da clandestinidade e da reorganização política do país após a revolução. Entre os nomes lembrados estão Celia Sánchez e Vilma Espín, figuras históricas da revolução que ocuparam posições de liderança política e institucional após a vitória do movimento revolucionário.

Além da atuação militar e política, as organizadoras ressaltam que as mulheres tiveram papel importante na ampliação do acesso à educação, na inserção feminina no mercado de trabalho e na construção de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero.

Para o Movimento Olga Benario e o Obalca, promover debates internacionalistas dentro da universidade também se tornou uma necessidade diante do atual cenário político latino-americano. As organizadoras avaliam que as disputas econômicas e geopolíticas envolvendo os Estados Unidos impactam diretamente países da região, incluindo o Brasil.

“Discutir Cuba também é discutir o futuro do Brasil. Em um contexto de crescentes pressões econômicas e geopolíticas sobre países latino-americanos, reafirmar a soberania nacional e a autodeterminação dos povos é essencial”, afirmam.

As inscrições para o curso serão realizadas por formulário online disponível no material de divulgação. Entre os itens solicitados para doação estão analgésicos, antitérmicos, máscaras, luvas, seringas, sabonetes, escovas de dente, shampoo e absorventes.

SAIBA MAIS:
Movimento Olga Benário convoca ato do Julho das Pretas em Natal



Fonte: saibamais.jor.br

Mineiro diz que redução da jornada será aprovada com pressão da sociedade

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Mineiro diz que redução da jornada será aprovada com pressão da sociedade

A comissão especial da Câmara que analisa a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1, que tem o deputado federal Fernando Mineiro (PT-RN) como membro suplente, realizou mais duas reuniões nesta semana. O deputado petista esteve presente e disse que vê uma movimentação de setores empresariais contrários à proposta, mas defendeu uma pressão da sociedade para alcançar a redução da jornada.

As últimas reuniões da comissão ocorreram na quarta-feira (13). Pela manhã, uma audiência pública discutiu os impactos sobre a vida das mulheres e dos pequenos negócios. Os deputados buscaram avaliar, entre outros pontos, os efeitos da jornada de trabalho sobre as trabalhadoras, especialmente nos setores de comércio, serviços e trabalho doméstico.

Mineiro afirmou que já vê na sociedade uma maioria favorável à redução da jornada, com resistência de setores empresariais (“espero que sejam minoritários”). O deputado afirmou que as mulheres são as que mais sofrem na escala 6×1 e muitas vezes enfrentam, em sua visão, uma escala 7×0, devido ao trabalho de cuidado.

“Além da questão da jornada, é preciso também pensar em políticas públicas para enfrentar essa questão do trabalho com os cuidados, que é um trabalho invisível, um trabalho não remunerado e um trabalho que pesa em demasia na vida das mulheres”, afirmou.

O parlamentar também afirmou ter recebido, na terça, uma mensagem da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), “o setor que hoje está mais tocando o terror”, e disse ser necessário fazer pressão pela aprovação da redução da jornada.

“É como se fosse parar, fechar restaurantes, fechar bares, fazer demissões. É como se fosse o caos para o setor essa aprovação. E nós vamos aprovar! Eu acho que a Câmara vai aprovar com a pressão da sociedade”, apontou.

Segundo Fernando Mineiro, existe um terror difundido deliberadamente que aposta na falta de dados e vira as costas para estudos.

“E o que a gente vê, lamentavelmente, num cenário no qual nós temos os melhores indicadores recentes da história do Brasil, é uma situação muito triste: os setores empresariais afirmarem e difundirem mentiras. Ontem um grupo aqui em Brasília projetou no telão desemprego e fechamento de empresas. Divulgaram absurdos.”

Pela tarde, a comissão realizou nova audiência, desta vez com o tema “Aspectos sociais e diálogo social para redução da jornada de trabalho”. A data, 13 de maio, foi a mesma em que, em 1888, foi assinada a Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil. 

“O ministro Boulos disse que a redução da jornada de 48 para 44 horas tem 38 anos, pois são 138 anos da Lei Áurea. Houve o chamado Barão de Cotegipe, que apresentou um projeto de lei para indenizar os proprietários dos escravizados e das escravizadas daquela época. E existem os Barões de Cotegipe do tempo atual, porque, aqui nesta Casa, já houve quem apresentasse proposta para indenizar setores empresariais. Ou seja, o Barão de Cotegipe foi revivido. Inclusive, o Barão de Cotegipe foi Presidente do Senado na época imperial. Então, nós vemos aqui a réplica, a encarnação do Barão de Cotegipe”, discursou.

Mineiro afirmou assistir a uma reação. “A despeito de quase 80% da sociedade brasileira hoje apoiar a redução da jornada e apoiar a mudança e a redução da escala também, há, aqui neste Congresso, uma inversão: a maioria de quem compõe a Câmara e o Senado é representante de setores empresariais”, disse.

“Então, eu quero fazer este registro e dizer que só acredito que nós vamos aprovar esta proposta — e vamos aprová-la — com a pressão da sociedade. E deixo bem claro que nós não podemos aceitar nenhum tipo de indenização, como querem os Barões de Cotegipe dos tempos atuais”, prosseguiu.

As discussões da comissão se baseiam nas Propostas de Emenda à Constituição apresentadas pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e pela deputada Erika Hilton (Psol-SP): a primeira (PEC 221/19) com previsão de redução gradual da jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas; e a segunda (PEC 8/25) com escala de quatro dias de trabalho por semana, com limite de 36 horas no período.

Além desses dois textos, o presidente Lula também enviou ao Congresso, em abril, um projeto de lei que reduz o limite da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso remunerado e proíbe qualquer redução salarial. Na prática, o texto coloca fim à escala 6×1.

Fonte: saibamais.jor.br

Sobre detergentes, vacinas e Mounjaro

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Sobre detergentes, vacinas e Mounjaro

Desde as eleições do ex-presidente, Jair Bolsonaro, estamos vivenciando um surto de declarações absurdas que, inclusive, foram e são legitimadas por ele e seus apoiadores. Gente que veio a público questionar a eficácia das vacinas e fazia campanha contra, alegando os efeitos nocivos que poderiam causar à saúde. Isso sem falar nos inúmeros questionamentos sobre a eficácia e a suposta falta de pesquisas que a comprovassem.

Recentemente, a ANVISA emitiu um alerta a respeito do detergente da marca Ypê, mais especificamente sobre o lote terminado em um. Imediatamente, surge um movimento inacreditável nas redes sociais de bolsonaristas bebendo o produto, banhando-se com ele ou jogando-o em plantações e comidas. Eu poderia alegar que as mesmas pessoas que antes estavam questionando as comprovações científicas a respeito das vacinas contra a COVID-19 estão agora não apenas fazendo uso, mas bebendo um produto que possivelmente está contaminado por uma bactéria grave.

Que a preocupação dessas pessoas não é com a saúde ou com a ciência, disso nós já sabemos. Não dá para esperar lucidez dessa gente, então não percamos tempo com isso. O que tem me assustado verdadeiramente é a quantidade de pessoas que se dizem preocupadas com saúde, as mesmas defensoras da ciência e das pesquisas, buscando alternativas similares ao Mounjaro, inclusive no mercado clandestino, e tomando-as sem prescrição médica.

Mesmo com vários estudos apontando as indicações do medicamento (diabetes tipo 2 e obesidade), pessoas que estão apenas com excesso de peso estão recorrendo às chamadas “canetas emagrecedoras”. Não estou aqui para tecer comentários negativos sobre o produto. É um caminho possível e seguro para quem tem acesso ao medicamento testado e com acompanhamento médico, o que vai exigir recursos financeiros que a maioria da população não tem.

O problema é ver pessoas instruídas e supostamente lúcidas buscando alternativas que não são seguras, não pela saúde, mas para atingir um padrão estético exigido pela mídia e que sabemos ser inalcançável. O Brasil é o país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo e, apesar das discussões que vemos nas redes sobre corpos reais, a verdade é que ninguém está satisfeito com o próprio corpo e, em muitos casos, é capaz de tudo para conseguir atingir seu ideal. Muitos homens que criticam a ditadura da beleza nas redes sociais buscam corpos magros para se relacionar. Muitas mulheres passam o dia atacando outras mulheres porque engordaram, e isso não faz o menor sentido.

Durante o Met Gala 2026, acompanhei várias críticas aos corpos de Rihanna e Beyoncé, mulheres lindíssimas que acabaram de ter filhos e já têm mais de trinta anos. O que esperar de mulheres nessa idade, que são mães e têm uma carreira ativa? Alguns dirão: “ah, mas elas são ricas e vivem da imagem, deveriam se cuidar”, mas elas, mesmo um pouco acima do peso, continuam lindíssimas e bem-sucedidas. O que é “se cuidar” para você?

Quem conhece minha filha sabe que ela é extremamente magra. Eu, apesar das fotos e comentários elogiosos nas redes, peso 100 kg. Adivinha quem está com o colesterol alto. Entendem? Saúde não é sobre balança e números. Esperar que eu, uma mulher de 45 anos, mãe, trabalhando o dia todo em várias atividades e cuidando da casa, ainda tenha ânimo diariamente para cuidar do corpo, comer bem e ainda atingir o manequim 42 é querer me envolver nessa máquina da indústria que movimenta moda, medicamentos e suplementos.

Se o seu peso lhe incomoda, emagreça, mas faça isso com respeito pela sua trajetória, rotina de vida e saúde. Não use a régua das redes sociais como parâmetro. Corpos ditos perfeitos são fruto de muita disciplina, sim, mas também e principalmente de vários procedimentos e de uma dieta restritiva.

Independentemente do seu manequim, vá ser feliz. Acredite: ninguém liga! Quem comenta, na verdade, está tentando apenas tirar o foco de si mesmo, mas, no fundo, tem inveja da sua autoestima.


Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.

Fonte: saibamais.jor.br

Por literaturas que mobilizem pensamentos, sentimentos e virtudes nas crianças

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“Os livros são objetos transcendentes, mas os podemos amá-los do amor táctil.” Caetano Veloso(1997). Causa – me inquietação perceber a redução dos espaços destinados aos livros em muitos projetos arquitetônicos contemporâneos. Soma-se a isso o fechamento de livrarias de rua e o encerramento de grandes redes. Iniciativas voltadas à democratização do livro e da leitura merecem incentivo permanente.

Ler exige cultivo, continuidade e desejo. Em muitos modelos escolares tradicionais, a leitura obrigatória convertia-se em peso para parte dos estudantes, atravessada mais pelo dever do que pelo encantamento. Faltava, por vezes, a delicadeza de perceber a beleza que dança entre as palavras, na tessitura das narrativas, na construção das personagens e na arquitetura dos textos.

Para Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina, a conquista de um livro desejado ultrapassa a relação com um objeto: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” A narradora prolonga a espera, adia o prazer, esconde o livro e o reencontra. A metáfora construída por Clarice rompe com a perspectiva mecânica da leitura e afirma a entrega absoluta a um encontro. No sentir de Caetano Veloso(1997) “os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro apontando pra a expansão do universo porque a frase, o conceito, o enredo, o verso e, sem dúvida, sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.”

Por isso, importa celebrar as pessoas que se dedicam a construir mundos dentro de outros mundos, sobretudo aquelas que direcionam inventividade para as infâncias; pessoas que conduzem crianças por caminhos de imaginação, descoberta, ampliação vocabular e expansão das sensibilidades para o desenvolvimento de novos leitores e leitoras. 

Quando eu era menina, lia a mesma história inúmeras vezes. Saber decifrar as palavras produzia em mim enorme alegria. Havia encantamento em atravessar cidades lendo placas, nomes de ruas e fachadas. Outro entusiasmo consistia em ir, aos sábados pela manhã, à Livro 7, no centro do Recife. Aos olhos da criança que eu era, aquela livraria parecia gigantesca. Até hoje desconheço seu tamanho. Na memória, ela permanece imensa.

De tanto amar o hábito da leitura, assim que aprendi a escrever resolvi enviar uma carta ao meu escritor preferido. Desejava experimentar a emoção de receber correspondências, como via acontecer com os adultos da minha casa.

Escrevi para Ganymedes José, um dos autores mais lidos da literatura infantil da minha geração. Preparei uma carta cheia de perguntas e a encaminhei à editora, que a repassou ao escritor. Algumas semanas depois, naquele Brasil que respirava os ares iniciais da redemocratização, ele respondeu com delicadeza: primeiro, uma carta de próprio punho; depois, outra datilografada. 

Tempos mais tarde, recebi também minha primeira grande lição sobre a brevidade da vida. A editora escreveu comunicando sua morte e enviou um exemplar de um de seus livros como gesto de consolo, em resposta à outra carta que permanecera sem retorno. Havia enorme sensibilidade naquela forma de explicar a uma criança a partida de um autor.

Carrego profunda gratidão por Ganymedes José, assim como por Giselda Laporta Nicolelis, mãe do neurocientista Miguel Nicolelis, e pelo quarteto formado por Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, autores da coleção Para Gostar de Ler,uma iniciativa da Editora Ática pois atiçaram em mim o interesse pela leitura, contribuindo para o desenvolvimento da pessoa que sigo me constituindo, nesse vir a ser contínuo. 

Com esse espírito de reverência aos escritores e escritoras dedicados à literatura para crianças, considero um privilégio conviver com amigos que fortalecem a produção literária infantil realizada em Natal, no Rio Grande do Norte, e a projetam nacionalmente. Entre eles estão Juliano Freire, Adriano Gomes, José de Castro e Salizete Freire (in memoriam). Um dos últimos áudios de Salizete para mim, entre tantos assuntos, trazia a promessa de que ainda nos encontraríamos em outra alegria.

Eles produzem narrativas que estimulam o pensamento das crianças sem subestimá-las. Convocam o sensível, investem na qualidade estética das ilustrações e, simultaneamente, mobilizam em nós, adultos, reflexões indispensáveis. As imagens dialogam com os signos das infâncias, enquanto os temas pertencem ao interesse mais amplo da humanidade.

Nesta semana, Juliano Freire lançou mais uma obra. Autor de títulos como Doninha e o marimbondo, Pereyra – o menino bom de bola, Felizardo contra a bruxa da feira, Gumercindo mora no castelo e A cachorrinha que aprendeu a ler, ele conta que, na adolescência, escrevia para adultos nos cadernos da escola. Já na vida adulta, voltou-se à escrita para crianças. A experiência da paternidade, ao lado dos filhos Luca e Nicole, impulsionou histórias inicialmente narradas ao primogênito e, posteriormente, transformadas em livros.

A cachorrinha que aprendeu a ler nasceu diretamente pensado para o formato literário. Foram quatro horas de sessão de autógrafos na tarde do dia 08 de maio. As ilustrações são de Mari Holtz e lançado pela Editora Ases da Literatura, no selo Asinha. 

A narrativa acompanha uma família multiespécie em que uma cachorrinha escuta as histórias narradas pela avó Gertrudes e observa a rotina da família Pintassilgo. No encontro intergeracional entre avó, neta Lúcia e o pet, surgem letras, sentidos e descobertas. A cachorrinha aprende a ler silenciosamente e, como observa o autor, “sua maior leitura consiste em perceber-se amada e acolhida, experiência que sustenta qualquer aprendizagem”, afirmou sabiamente Juliano Freire. Trata-se de uma família comum, inserida em contexto urbano, composta por pais trabalhadores. A sintonia entre a avó, a criança e o animal organiza o núcleo afetivo do enredo.

Juliano reúne gentileza, sólida fibra ética, sensibilidade humanista e dedicação à família, ao jornalismo e aos amigos(as). Que bom amigo! Pertence à categoria rara das pessoas cuja presença favorece crescimento e amadurecimento dos que caminham ao redor. Que, assim como a cachorrinha que aprendeu a ler, também consigamos cultivar dentro de nós formas mais amorosas de habitar o mundo. 

Fonte: saibamais.jor.br

Krhsytal, Regina Navarro Lins, Carlão, rock, forró e mais no sábado (16)

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Foto: Sandro Menezes

A programação cultural de sábado (16) está daquele jeito. Logo cedo, a partir das 10h, o Sebo Vermelho, na Cidade, promove o lançamento da reedição de Crônicas da Banalidade, do escritor e jornalista Carlão de Souza, que nos deixou em 2019. Além de cerveja gelada, o DJ Implacável do Vinil embala a festa para presente.

No mesmo horário, na Livraria Nobel, no Praia Shopping, a psicanalista Regina Navarro Lins fala sobre as formas de amar do século XXI.

A noite ainda tem Krhystal e Daniela Fernandes, no Figa bar, na Vila de Ponta Negra, e um grande festival de rock no Wesley´s Bar, em Capim Macio.

Também tem teatro no TAM, com o espetáculo “Vinde a mim”, a partir das 19h30, e quatro exposições impedíveis, entre elas Chuva de Polén, de Ítalo Trindade, que estreou sexta-feira (16).

O #Meguia traz várias opções para deixar seu sábado mais divertido. Faça seu roteiro e vá simbora !

MÚSICA ___________________________

Encontros Potiguares: Khrystal e Daniela Fernandes, no Figa bar | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Figa Bar (Rua Manoel Coringa de Lemos, 633 – Vila de Ponta Negra, Natal)
HORÁRIO | 18h
INFORMAÇÕES | @figa.bar

Um Forró Pra Chamar o São João, no Bardallo´s | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Bardallo’s (Rua Gonçalves Lêdo, 678 – Cidade Alta, Natal)
HORÁRIO | 20h
INFORMAÇÕES | @bardallosnatal

Grande Noite de Rock, no Wesley´s Bar | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Wesley’s Bar (Rua Alexandre Câmara, 1773 Capim Macio, Natal)
HORÁRIO | 17h30
ENTRADA | Gratuito 17h-19h | R$10 antecipado no Outgo | R$20 na portaria
INFORMAÇÕES | @wesleysbar

Banda 5584, no Sempre Rock | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Sempre Rock (Avenida Praia de Ponta Negra, 9045, Ponta Negra)
HORÁRIO | 19h
ENTRADA | Couvert
INFORMAÇÕES | @semprerockbar

Jizzards O Retorno | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Cervejaria Natal Bier (antiga Cervejaria Resistência – rua Leonora Armstrong, 35, Ponta Negra)
HORÁRIO | 20h
INFORMAÇÕES | @natalbier

Karaokê | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Eletromusic Pub (Av. Prudente de Morais, 5823 – Candelária, Natal)
HORÁRIO | 20h
ENTRADA | Entrada free
INFORMAÇÕES | @eletromusicpub

Super! / Pop & Funk | 16.05 SÁBADO
2 pistas: Aquário + Lounge Eletrônico
LOCAL | Casanova (Av. Senador Salgado Filho, 3526 – Candelária, Natal)
HORÁRIO | 20h
ENTRADA | Entrada free
INFORMAÇÕES | @casanova

Villa Lobos + Banda Lavine | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Rastapé Casa de Forró (Rua Aristides Porpino Filho, 2198 – Ponta Negra, Natal)
HORÁRIO | 22h
ENTRADA | Senhas na bilheteria da casa
INFORMAÇÕES | @rastapecasaforro

Pajux + Found a Job | 16.05 SÁBADO
B2B Clássico – Happy hour até 21h
LOCAL | Molotov Drinks (Av. Senador Salgado Filho, 1593 – Lagoa Nova, Natal)
HORÁRIO | 18h
ENTRADA | Couvert R$10 (revertido em drink)
INFORMAÇÕES | @molotovdrinks_

DJ VOGN – Pop & House | 16.05 SÁBADO
LOCAL | LaLuna Bar (Praça da Guerreira – Alameda das Acácias, 10 – Neópolis, Natal)
HORÁRIO | 19h
INFORMAÇÕES | @Laluna

DJ Fefonado, no Galpão 22 | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Galpão 292, Rua Chile, Ribeira
HORÁRIO | 20h
INFORMAÇÕES | @galpao.292

Invasão Geek | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Casa de Apostas Arena das Dunas
HORÁRIO | 10h às 20h
ENTRADA | gratuita, mediante cadastro na Semana S e doação de 1kg de alimento
INFORMAÇÕES | www.sescrn.com.br

RN Hip-Hop Trip Festival | 16.05 SÁBADO
LOCAL | São Gonçalo do Amarante
HORÁRIO | a partir das 9h
ENTRADA | gratuita

Plataforma 17 | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Bafafá Bar, Praça Dr. Amaro Marinho, 07, Lagoa Nova
HORÁRIO | 20h
ENTRADA | couvert R$ 12
INFORMAÇÕES | @bafafa.bar

TEATRO ________________

Vinde a Mim, no TAM | 16.05 SÁBADO
LOCAL | Teatro Alberto Maranhão (Praça Augusto Severo, s/n – Ribeira, Natal)
HORÁRIO | 19h30
ENTRADA | Bilheteria do TAM
INFORMAÇÕES | @teatroalbertomaranhao.oficial

LITERATURA ____________________

Lançamento da reedição de “Crônica da Banalidade” | 16.05 SÁBADO
O jornalista e escritor potiguar Carlos de Souza volta ao centro da cena cultural do Rio Grande do Norte com a reedição de Crônica da Banalidade, obra considerada um dos marcos da literatura potiguar contemporânea. Publicado originalmente em 1988, o livro retorna às prateleiras após mais de quatro décadas fora de circulação, em nova edição lançada pela Sebo Vermelho Edições.
LOCAL | Sebo Vermelho
HORÁRIO | a partir das 10h
INFORMAÇÕES | Carlão de Souza “volta à cena do crime” com reedição de “Crônica da Banalidade”

Lançamento do livro “Tragédias Cotidianas” | 16.05 SÁBADO
Lançamento do livro de Kaenia Paiva com música ao vivo: Priscila Matos (Voz e piano), Philipp Paiva (Violino) e Diego Paixão (Violoncello)
LOCAL | Mahalila Café (Rua Dra. Nívea Madruga, 19 – Lagoa Nova, Natal)
HORÁRIO | 19h
INFORMAÇÕES | @mahalilacafe

Regina Navarro Lins fala sobre “Novas formas de amar”, na Nobel | 16.05 SÁBADO
A psicanalista Regina Navarro Lins debate as nova formas de amar no século XXI na livraria Nobel
LOCAL | Livraria Nobel (Praia Shopping, Capim Macio)
HORÁRIO | 10h às 12h30
INFORMAÇÕES | @nobelnatal

Grupo Resiliência, propósito e sentido da vida, na Nobel | 16.05 SÁBADO
Grupo debate “A liberdade é uma escolha”, de Edith Eger
LOCAL | Livraria Nobel (Praia Shopping, Capim Macio)
HORÁRIO | 19h às 21h
INFORMAÇÕES | @nobelnatal

EXPOSIÇÕES _________________________

Chuva de Poléns, no Margem Hub
Abertura de exposição de Ítalo Trindade, composta de montagens abstratas e de pinturas sobre e telas e papel, a mostra permeia os desdobramentos do estudo sobre luz e cor em diferentes instantes da carreira do artista.
LOCAL | Margem Hub, Rua da Sheelita, 59, Potilândia, Natal
HORÁRIO | 19h

“Entre cá & lá – Experiências do passado no tempo presente”, na EMUFRN
LOCAL | Escola de Música da UFRN (Rua Coronel João Medeiros, Lagoa Nova)
HORÁRIO | Horário de funcionamento da escola
ENTRADA | Gratuita
INFORMAÇÕES | @escolademusicaufrn

“Exposição coletiva”, no Bardallos
LOCAL | Bardallos (Rua Gonçalves Lêdo, 678, Cidade Alta, Natal)
HORÁRIO | a partir das 12h
ENTRADA | Gratuita
INFORMAÇÕES | @bardallosnatal

“No limiar da romanceira coroada, no IFRN Cidade Alta
LOCAL | IFRN Cidade Alta (Av. Rio Branco, 743, Cidade Alta)
HORÁRIO | a partir das 12h
ENTRADA | Gratuita
INFORMAÇÕES | @ifrncentrohistorico

EQUIPAMENTOS CULTURAIS ____________________________

Fica a dica: antes de sair de casa, vale conferir direitinho os dias de funcionamento e aproveitar os espaços que seguem abertos durante o feriado. Cultura, lazer e natureza seguem na programação!

CIDADE DA CRIANÇA
O parque público, fundado em 1962, compreende parque Infantil, pista de cooper, Lagoa Manoel Felipe, pedalinhos, igrejinha, anfiteatro, Escola de Artes Newton Navarro, Biblioteca Infanto-juvenil Mirian Coeli, Casa de Vovozinha, praça de alimentação com quiosques, Espaço Eureka de Ciência e Tecnologia.
LOCAL | Cidade da Criança (Av. Rodrigues Alves – Tirol)
HORÁRIO | aberto das 8h às 18h
ENTRADA | R$ 2 (menores de 5 anos e maiores de 65 não pagam)
INFORMAÇÕES | @cidadedacriancanatal

FORTE DOS REIS MAGOS
O monumento, administrado pela Fundação José Augusto, está aberto à visitação. Visitas em grupo devem ser encaminhadas com antecedência para o e-mail [email protected], contendo data, horário e o descritivo da atividade a ser realizada.
LOCAL | Forte dos Reis Magos (Praia do Forte)
HORÁRIO | das 8h às 16h (de terça a domingo), fechando apenas às segundas-feiras para manutenção
ENTRADA | R$ 5 (entrada inteira) e R$ 2,50 (meia entrada) aos visitantes da Fortaleza dos Reis Magos. Crianças até sete anos e os idosos a partir dos 60 anos estarão isentos dessa cobrança.
INFORMAÇÕES | Aqui

PARQUE DAS DUNAS
O Parque Estadual Dunas do Natal “Jornalista Luiz Maria Alves” é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como parte integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Brasileira. Ele é considerado o maior parque urbano sobre dunas do Brasil, exercendo fundamental importância para a qualidade de vida da população natalense. O setor de uso público é o Bosque dos Namorados, que ocupa uma área aproximada de sete hectares, com mais de mil e trezentas árvores nativas da Mata Atlântica.
LOCAL | Avenida Alexandrino de Alencar s/n, Tirol
HORÁRIO | das 7h30 às 17h (de terça a domingo), fechado apenas às segundas-feiras para manutenção
ENTRADA | R$ 1 (pode ser pago via pix)
São isentos de pagamento crianças de até cinco anos, adultos acima de 60 anos, escoteiros uniformizados e escolas públicas (com agendamento).

Foto: Sandro Menezes
Foto: Sandro Menezes

CAJUEIRO DE PIRANGI 
Localizado na praia de Pirangi do Norte, Parnamirim, o Cajueiro cobre uma área de aproximadamente 9.000 m², com perímetro de aproximadamente 500 metros. Em virtude da sua extensão, a árvore gigante entrou para o Guinness Book “O Livro dos Recordes”, em 1994, como o Maior Cajueiro do Mundo. A árvore faz parte da vida da comunidade e do roteiro turístico dos visitantes do RN. A entrada custa R$ 8. Crianças, de sete a 12 anos pagam meia-entrada, assim como estudantes, professores e idosos, portando carteira comprobatória.
LOCAL | Av. S. Sebastião, s/n, Pirangi do Norte
HORÁRIO | 7h30 às 17h30 – ESTÁ FECHADO PARA RECUPERAÇÃO NOS DIAS 16 e 17 de SETEMBRO
TELEFONE | (84) 3113 – 6191
E-MAIL | [email protected]

BOSQUE DAS MANGUEIRAS
Área pública de 14.125 m², do bioma Mata Atlântica, conforme classificação do Manual Técnico da Vegetação Brasileira (IBGE, 2012). O local dispõe de passeios acessíveis para prática de atividades físicas como caminhada e corrida.
LOCAL | entre a Av. Nascimento de Castro, Jaguarari e Rua Tertius Rebelo, bairro Lagoa Nova
HORÁRIO | de segunda a sexta das 8h às 14h
CONTATOS | [email protected] e Ouvidoria Semurb: (84) 3616-9829.

COMPLEXO CULTURAL RAMPA
O centro cultural edificado às margens do Rio Potengi está aberto à visitação. O Complexo é formado por edificações destinadas a abrigar o Museu da Rampa, o Memorial do Aviador, o Grêmio da Rampa, além de outros espaços voltados à realização de eventos, exposições, cursos e oficinas. Atualmente, os visitantes têm acesso a quatro mostras: “Natal Encruzilhada do Mundo”, “Sala da Paz”, “O Maior Feito Náutico do Mundo: 70 Anos da IOLE RN 2” e “Jornada na Cidade”.
LOCAL | Rua Cel. Flamínio, 1 – Santos Reis, Natal
HORÁRIO | das 9h às 18h (de terça a domingo), fechado apenas às segundas-feiras
Entrada gratuita.

PINACOTECA POTIGUAR
Reúne a maior parte do acervo de Artes Visuais pertencente ao Governo do Estado, com obras de artistas como Newton Navarro, Maria do Santíssimo, Abraham Palatinik, Dorian Gray Caldas e Zaíra Caldas. Até 10 de dezembro, segue aberta a exposição “Objetos do Cotidiano”, que reúne uma coletânea dos trabalhos produzidos por 38 participantes das oficinas de fotografia do Projeto “Narrativas do Silêncio”.
LOCAL | Praça Sete de Setembro, s/n Cidade Alta, ao lado da Assembleia Legislativa do RN
HORÁRIO | de terça a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos finais de semana, das 9h às 16h
Entrada gratuita.

**** Este guia cultural está sujeito a alterações. Sentiu falta de algum evento? Manda que a gente publica!



Fonte: saibamais.jor.br

Música e troca de olhares: linguagens de afeto

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Música e troca de olhares: linguagens de afeto

Começou com música.

Não exatamente com conversa, embora conversassem. Nem exatamente com flerte, embora houvesse desejo atravessando tudo, uma eletricidade escondida dentro da parede. Começou com uma canção enviada às duas da manhã, sem contexto algum.

“Escuta isso.”

Ela clicou.

Era uma música antiga, dessas que parecem tocar dentro de um quarto cheio de fumaça e lembranças. A voz rouca do cantor dizia algo sobre amar alguém mesmo quando o mundo inteiro parecia feito para impedir. Quando terminou, ela ficou olhando para o teto do quarto, sentindo que havia perguntas demais escondidas naquela escolha.

Respondeu no mesmo idioma.

Mandou outra música de volta.

Uma sobre encontros tardios.

Sobre pessoas que se reconhecem cansadas.

Sobre desejo dito pela metade.

E foi assim que passaram a se falar.

As mensagens vinham quase sempre acompanhadas de letras, links, trechos sublinhados, áudios curtos gravados dentro do carro, refrões específicos enviados. Entregavam um segredo. Nenhum dos dois dizia claramente o que queria dizer. A música fazia isso por eles.

Às vezes ele mandava algo agressivamente romântico, mas disfarçado em indie rock melancólico. Ela devolvia sambas doloridos, canções de amores impossíveis, MPBs que falavam de permanência sem precisar usar a palavra amor.

Era um idioma próprio.

Ele dizia “ouve a faixa três”.

Ela entendia “pensei em você o dia inteiro”.

Ela enviava uma música sobre saudade.

Ele compreendia “eu queria estar perto agora”.

Havia uma intimidade absurda em ser traduzido pelas escolhas musicais de alguém.

Os encontros começaram antes mesmo de acontecerem oficialmente. Criavam situações pequenas, quase banais, só para caber um no cotidiano do outro. Ela fingia precisar passar perto da oficina onde ele trabalhava. Ele inventava cafés demorados na região onde ela costumava estar. Às vezes dividiam apenas quinze minutos de conversa numa praça quente, encostados num banco descascado enquanto o fim da tarde dissolvia a cidade em tons cor de ferrugem. O Sertão faz o horizonte pegar fogo em certas estações.

Depois iam embora, semelhante a quem tenta preservar alguma coisa delicada demais para ser tocada rápido.

Nenhum dos dois tinha coragem de acelerar aquilo.

Talvez porque ambos soubessem que certos afetos, quando nomeados, se assustam e fogem.

Numa sexta-feira de chuva fina, ele mandou outra música.

Dessa vez, uma versão ao vivo. Voz baixa. Violão quase triste.

“Essa aqui me desmonta”, escreveu.

Ela ouviu sentada na cama, ainda enrolada na toalha depois do banho. A letra falava sobre duas pessoas que se olhavam. Um encontro para o descanso depois de anos sobrevivendo.

Ela demorou para responder.

Mandou apenas:

“Acho que a gente precisava se ver hoje.”

Ele respondeu em menos de um minuto:

“Acho isso também.”

Encontraram-se num bar pequeno perto do mercado, desses onde a iluminação é baixa demais e a música ambiente parece sempre saída de um rádio antigo. Ela chegou primeiro. Observava as gotas escorrendo pelo vidro enquanto tentava controlar a ansiedade absurda que sentia nas mãos.

Quando ele entrou, o mundo pareceu desacelerar.

Camisa clara grudada nos ombros por causa da chuva. O cabelo úmido. O olhar procurando por ela até encontrar.

A conexão ocorreu de imediato.

Não era apenas desejo.

Era reconhecimento.

Os dois carregassem silenciosamente a mesma exaustão de existir no mundo e, ainda assim, encontrassem alívio um no outro.

Ele sorriu primeiro, daquele jeito pequeno e involuntário que nasce antes da consciência. Ela sentiu o corpo inteiro amolecer.

Abraçaram-se. Num abraço longo e apertado carregado de… De quê?!

Sentou-se à frente dela como quem já conhecia aquele lugar.

Conversaram durante horas. Sobre discos antigos. Sobre shows ruins. Sobre letras que salvam pessoas em dias específicos. Sobre como certas músicas conseguem dizer exatamente aquilo que ninguém aprende a pronunciar em voz alta. Sobre a vida um do outro…

Em algum momento, ela comentou:

“Acho que a gente fala mais pelas músicas do que pelas mensagens.”

Ele riu baixo.

“Porque música não mente tão fácil.”

Ela não desviou o olhar, apesar do impacto que a frase lhe causou.

O bar foi esvaziando devagar. Cadeiras subindo nas mesas. Funcionários bocejando perto do caixa. E eles continuavam ali, presos numa conversa que parecia existir há muito tempo antes daquele encontro.

Na saída, caminharam pela calçada molhada sem direção definida.

Ele encostava nela às vezes, de leve, como quem testa a possibilidade de permanência. Ela percebia cada toque. Parecia que seu corpo inteiro tivesse sido reprogramado para notar apenas aquilo.

Pararam diante da praça da matriz.

O vento bagunçou o cabelo dela. Ele observou em silêncio por alguns segundos antes de dizer:

“Tem uma música que eu nunca te mandei porque fiquei com medo.”

Ela sorriu de canto.

“Então manda agora.”

Ele tirou o celular do bolso, procurou rapidamente e entregou para ela.

A canção começou suave.

A letra dizia: “Eu sei, é o amor que ninguém mais vê.”

Ela levantou os olhos devagar, pensou: “Será que ninguém mais vê isso?!”

E lá estava ele.

A mesma troca de olhar.

O mesmo sorriso suspenso no canto da boca.

A mesma transparência impossível entre duas pessoas que já tinham entendido tudo sem precisar nomear quase nada.

Ela segurou a mão dele pela primeira vez.

Sem espetáculo.

Sem anúncio.

Sem urgência.

Igual a quem, finalmente, encontra a nota certa depois de passar anos ouvindo a vida desafinada.

Despediram-se com a promessa de um novo encontro, talvez na casa de um deles?!, regado a vinho?!, uma cerveja?!, pizza?!, churrasco?!, cachacinha?!, um café?! …

Decidiriam depois.

Quando, deitada em sua cama pensava naquele encontro, pensou: Mais transparente que nosso olhar quando nos vemos é a troca de olhar que permanece com um sorriso no canto da boca quando lembramos um do outro.

Fonte: saibamais.jor.br

Jurema Sagrada resiste entre cidade, território e ancestralidade no RN

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Jurema Sagrada resiste entre cidade, território e ancestralidade no RN
Foto: cedida

A Jurema Sagrada permanece viva no Rio Grande do Norte como prática espiritual, herança indígena e forma de resistência coletiva. Para lideranças e pesquisadores ligados à tradição, sua trajetória é marcada por séculos de perseguições, apagamentos culturais e luta permanente pela preservação dos territórios, da memória ancestral e dos saberes transmitidos entre gerações.

Fábio de Oliveira, que também leva o nome Ta’angahara, é mestrando em Antropologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cineasta, escritor, editor, ambientalista e juremeiro iniciado. Sua pesquisa acadêmica investiga as relações entre espiritualidade, território, meio ambiente e identidade presentes nos cultos de Jurema. O trabalho nasceu inicialmente de outro interesse, o de estudar o preconceito em torno do sacrifício de animais nos terreiros. Mas o próprio cotidiano dentro da religião levou o pesquisador a mudar de direção.

“No começo eu ia pesquisar o preconceito relacionado ao sacrifício de animais, mas percebi que existia algo muito mais urgente num cenário em que o mundo fala tanto sobre justiça climática e proteção da biodiversidade”, afirma.

Segundo Ta’angahara, o que mais o impactou foi perceber que a Jurema funciona como uma “grande rede de convivência”, onde humanos, plantas, sementes, animais e entidades espirituais participam conjuntamente da formação do iniciado. “No ritual, as plantas e os animais deixam de ser vistos como recursos ou coisas descartáveis. Eles se tornam participantes ativos”, explica.

Foto: cedida

A pesquisa parte justamente dessa compreensão: a de que os terreiros guardam conhecimentos ancestrais sobre formas sustentáveis de coexistência entre seres humanos e natureza. Em um momento de agravamento da crise climática e avanço da devastação ambiental, Ta’angahara entende que a Jurema oferece reflexões que ultrapassam o campo religioso.

“O terreiro tem muito a ensinar sobre respeito à vida”, resume.

A relação entre espiritualidade e território aparece como eixo central da pesquisa. Ta’angahara destaca que a Jurema nasce das tradições indígenas nordestinas e mantém vínculos profundos com a terra e os seres da floresta. Ele cita estudos dos professores Luiz Assunção e Rômulo Angélico para lembrar que os povos originários nunca enxergaram a terra apenas como mercadoria ou propriedade.

“Cada planta e cada animal são vistos como sagrados”, afirma.

Em janeiro deste ano, mais de mil pessoas ocuparam a Pinacoteca do Estado durante o 9º Encontro de Juremeiros e Juremeiras de Natal, transformando o espaço em um grande território de afirmação religiosa, cultural e política.

SAIBA MAIS: Encontro de Juremeiros reúne mais de mil fiéis e fortalece a Jurema como patrimônio vivo

Essa relação ancestral, porém, vem sendo tensionada pelo crescimento urbano, pelo desmatamento e pela destruição de áreas verdes. Segundo o pesquisador, muitos terreiros passaram a funcionar como verdadeiros refúgios ecológicos dentro das cidades. “Quando a mata diminui, os juremeiros precisam adaptar suas tradições para espaços cada vez menores. O terreiro assume a missão de proteger o pouco de verde que resta”, explica.

Na avaliação dele, defender a Jurema também significa defender os territórios tradicionais e enfrentar a lógica urbana marcada pela destruição ambiental. “Cuidar da espiritualidade e proteger a natureza são caminhos que andam juntos.”

A dimensão ecológica atravessa todos os aspectos do culto. Plantas, cascas de árvores, sementes, ervas, fumaça e animais fazem parte dos rituais e carregam significados espirituais fundamentais. Ta’angahara destaca que existe um profundo conhecimento tradicional sobre manejo e preservação desses elementos.

“O uso do tabaco, das cascas e dos animais não é feito de qualquer jeito ou por exploração. Existe um cuidado rigoroso, uma sabedoria que respeita o tempo e a vida de cada ser vivo”, afirma.

Para ele, a preservação ambiental não aparece como tema secundário dentro da Jurema, mas como condição de sobrevivência da própria religião. “Se a floresta morre, a nossa fé morre com ela.”

A pesquisa também discute quem sustenta essa tradição atualmente. Ta’angahara destaca o papel dos anciãos responsáveis pela transmissão dos cantos, rezas e fundamentos religiosos, mas amplia essa noção ao afirmar que a própria natureza participa da continuidade da Jurema:

“Se a árvore da Jurema não estivesse lá para nos dar sua ciência, a religião simplesmente não existiria”, afirma. “Na Jurema, o bicho e a planta não são enfeites. Eles trabalham junto com a gente.”

Durante o 9º Encontro de Juremeiros e Juremeiras de Natal, essa dimensão coletiva ficou evidente. Mais de mil pessoas vindas de diferentes regiões do Rio Grande do Norte e de estados vizinhos participaram das atividades na Pinacoteca do Estado. O encontro reuniu apresentações culturais, comercialização de produtos ligados à economia de terreiro, rodas de conversa, celebrações religiosas e o lançamento do livro “Soledade: Cachimbo, Rede e Rosário”, de Mãe Maria Rita.

Em sua fala durante o evento, Mãe Maria Rita destacou a importância do registro da memória dos povos de terreiro, historicamente excluídos dos espaços acadêmicos e editoriais. “Nós somos um povo de oralidade porque nunca deixaram a gente entrar na academia, nunca deixaram a gente publicar nossos saberes”, afirmou.

O encontro também reforçou a dimensão política da Jurema. Em 2024, a tradição foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Religioso e Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte, além da criação do Dia da Jurema, celebrado em 2 de julho. Ainda assim, lideranças denunciam que a violência contra terreiros e praticantes continua presente.

“Mesmo com as leis instituídas, as investidas contra os terreiros continuam acontecendo por meio de depredações, repressões e invasões”, afirmou Ta’angahara durante o encontro.

Segundo ele, o preconceito contra religiões de matriz afro-indígena continua profundamente ligado ao desconhecimento histórico produzido desde o período colonial. A própria pesquisa acadêmica, afirma, surge também como forma de enfrentamento desse apagamento.

“As pessoas muitas vezes olham para a Jurema apenas pelo mistério ou pelo preconceito e ignoram completamente a ciência, a história e a sabedoria ecológica que existem ali dentro”, diz.

Dentro da universidade, Ta’angahara reconhece avanços recentes no reconhecimento dos saberes tradicionais como formas legítimas de produção de conhecimento. Ele cita como exemplo a criação de uma disciplina sobre Jurema Sagrada na Universidade Federal da Paraíba, voltada ao estudo da história, da organização social e da riqueza cultural da tradição.

“Estudar a Jurema na universidade nunca será igual a vivenciar o sagrado no terreiro. Mas essas iniciativas ajudam a derrubar os muros do preconceito institucional”, afirma.

SAIBA MAIS: Estudo da UFRN aponta efeito duradouro da jurema-preta na depressão

Ao conectar espiritualidade, território, identidade indígena e preservação ambiental, a pesquisa desenvolvida por Ta’angahara busca mostrar que os conhecimentos preservados nos terreiros dialogam diretamente com desafios contemporâneos ligados à crise climática, à destruição ambiental e à intolerância religiosa.

“A Jurema guarda uma tecnologia de convivência que a nossa sociedade perdeu”, afirma o pesquisador. “Ela mostra que é possível conviver com a natureza sem destruir a vida.”

SAIBA MAIS: Jurema Sagrada é reconhecida como Patrimônio Religioso Imaterial do RN

Fonte: saibamais.jor.br

Corpos pretos torturados

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Corpos pretos torturados

Conheci Luciano Simplício em Portalegre, em 2021. Ele morava com a mãe em uma casa simples, próxima ao matadouro da cidade, na zona rural do município potiguar, distante 360 quilômetros de Natal. Luciano tinha 23 anos na época.

Fui procurá-lo a pedido do jornal O Globo para uma reportagem sobre o jovem preto que havia sido chicoteado em praça pública por um comerciante da cidade. O motivo eu descobriria durante a apuração: Luciano havia atirado uma pedra contra o portão do estabelecimento do dono do chicote.

O torturador amarrou Luciano com uma corda, da mesma forma que os senhores de antigamente faziam com pessoas escravizadas quando um negro insolente desobedecia a uma ordem ou se revoltava contra o trabalho forçado.

A sessão de tortura em praça pública foi filmada por moradores e circulou nas redes sociais. Se a irmã de Luciano não tivesse chegado às pressas ao local, o jovem talvez não estivesse vivo.

A cena chocante não sensibilizou o Ministério Público Estadual que, contrariando a defesa de Luciano, denunciou o caso como lesão corporal leve.

A história de Luciano me veio à memória ao ler, semana passada, o relato de Samara Regina. Assim como o jovem de Portalegre, Samara nasceu na região Nordeste — ela é de São Luís, no Maranhão —, também tem a pele preta e 19 anos.

Há outra semelhança entre os dois: Samara foi torturada pela dona da casa onde trabalhava como empregada doméstica. A sessão de tortura não ocorreu em praça pública, como sofreu Luciano, mas a certeza de impunidade da agressora era tão grande que ela relatou, em um grupo de WhatsApp, parte da violência praticada contra a vítima, grávida.

A torturadora de Samara acusou a empregada de roubar um anel, encontrado depois no cesto de roupas sujas da própria casa. Um policial militar, cúmplice do crime, apontou um revólver para o rosto de Samara durante as agressões.

Luciano foi amarrado com uma corda e chicoteado à luz do dia, no meio da rua, porque atirou uma pedra contra a porta de um mercadinho. Samara foi torturada com tapas, socos e pisões porque a dona da casa onde trabalhava acreditou que a empregada havia roubado um anel. Jovens pretos. Nordestinos. Pobres.

Nos dois casos, a proteção da propriedade privada serviu como justificativa para os crimes de tortura.

Luciano e Samara foram vítimas de tortura no século XXI. Reza a lenda que a escravização de corpos negros acabou no Brasil em 13 de maio de 1888, quando uma princesa de Portugal assinou uma lei que pôs fim ao trabalho forçado e sem remuneração de negras e negros no país.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando a conduta imprescritível e inafiançável.

A Suprema Corte também considera os crimes de tortura inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia no Brasil.

Alberam de Freitas, o homem que torturou Luciano Simplício, não foi preso e segue vivendo normalmente em Portalegre. Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, a mulher que torturou Samara, está presa, ainda sob o clamor da repercussão nas redes sociais. A defesa alega que a acusada sofre de transtornos mentais.

Mais de 70% da população carcerária do Brasil é formada por pessoas pretas. Os torturadores de Luciano e Samara são brancos.

Em 2006, o então diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, publicou o livro Não Somos Racistas.

Essa história não termina aqui.

Fonte: saibamais.jor.br

nova obra de drenagem em Ponta Negra deve durar cinco meses

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Engorda: nova obra de drenagem em Ponta Negra deve durar cinco meses

A nova obra de drenagem que a Prefeitura de Natal pretende realizar na praia de Ponta Negra tem a previsão de durar cinco meses, conforme cronograma disponível no edital de licitação. 

A obra vai receber um investimento de R$21 milhões e está prevista para acontecer em três pontos: nas ruas Francisco Gurgel e dissipador 9; na rua João Rodrigues de Oliveira; e na rua Praia de Pirangi. 

A proposta contempla a implantação de três reservatórios subterrâneos de água distribuídos em três pontos da orla, conhecidos como reservatórios de detenção e infiltração com capacidade total de armazenamento de até 50 mil metros cúbicos.

O objetivo é minimizar os constantes alagamentos registrados na faixa de areia da praia desde a inauguração do aterro hidráulico no início de 2025. De acordo com a Prefeitura, o sistema foi dimensionado para suportar chuvas com intensidade até 60 mm, permitindo a infiltração da água no solo. 

Ainda assim, em casos de precipitações superiores a esse volume, o excedente será direcionado para a faixa de areia, podendo formar alagamentos que a Prefeitura vem chamando de “espelhos d’água”, que devem se dissipar rapidamente por infiltração.

De acordo com o Executivo, os reservatórios de detenção e infiltração foram escolhidos por sua alta capacidade de infiltração, eficiência operacional e caráter sustentável. Além disso, o sistema contribui para a melhoria da qualidade da água que chega à praia, ao promover a filtragem de impurezas provenientes, em muitos casos, de ligações clandestinas de esgoto que escoam diretamente para a areia.

A licitação está prevista para o dia 27 de maio. A partir dessa etapa, serão respeitados os prazos legais do processo licitatório. A expectativa é que, após a conclusão dessa fase, seja iniciada a implantação do novo sistema de drenagem no início do segundo semestre.

Alagamentos vão permanecer

Em evento com a imprensa na quarta-feira (13), o secretário de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb), Thiago Mesquita, afirmou que os “espelhos d‘água” vão continuar, mas em menor volume.

Mesquita defendeu a obra da engorda e disse que não houve problemas na execução — embora uma primeira drenagem já tenha sido feita e entregue no ano passado.

“A formação dos espelhos d’águas não é um problema. Nós temos ali aproximadamente uma bacia de 400 mil metros quadrados, que quando chove em torno de 120 milímetros, por exemplo, como foi a última chuva, você tem 120 milhões de litros de água que descem até Ponta Negra”, disse o secretário.

Segundo ele, a Prefeitura buscará fazer um espraiamento e diminuir a velocidade com que a água chega até a orla.

“O que a Seinfra [Secretaria de Infraestrutura] está fazendo agora é complementando ainda mais esse mesmo sistema com o objetivo de retardar ainda mais, diminuir ainda mais a sua velocidade para que a água chegue ainda mais espraiada na praia.”

Apesar disso, o secretário afirmou que os “espelhos d’água” na orla vão continuar a existir.

Saiba Mais: Engorda: Prefeitura anuncia nova obra de drenagem, mas diz que “espelhos d’água” continuarão

“Havendo chuvas acima de 60 milímetros, continuará a formar espelhos d’água. Um volume menor, numa espessura menor, com maior capacidade de retenção, mas como explicamos aqui hoje, o sistema está sendo melhorado, mas ele continua com a mesma concepção”, explicou.

Titular da Seinfra diz que não houve tubulações falsas

A secretária de Infraestrutura de Natal, Shirley Cavalcanti, negou a existência de tubulações falsas e galerias bloqueadas propositalmente, conforme apresentado em ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal. O órgão também demonstrou o risco de “desastre estrutural iminente” devido à “ausência de dissipadores eficientes e o grande desnível topográfico de 40 metros”.

“Na própria imagem que existe no relatório, a gente vê uma tubulação tamponada, que a gente vê ela fechada em alvenaria. Ela foi desativada e foi realocada para o lado. A gente consegue visualizar na própria foto onde ela foi reposicionada, no dissipador 15”, justificou.

“Ela foi desativada por questões técnicas, porque onde ela estava projetada tinha uma maior contribuição de esgoto. Então pra gente ter um melhor funcionamento, se reposicionou e o dissipador 15 está em pleno funcionamento. Os outros pontos que foram sobre fechamento dos tubos com lonas. Aquilo não é lona, é uma manta geotêxtil, conhecida como bidim, que serve para reter sedimentos. Ela não impede a passagem, o fluxo, a saída da água. E é uma manta muito utilizada em obras de drenagem. Então, em momento nenhum, houve interrupção de tubulações, nem tubulações falsas. A prova disso é que a água está chegando na faixa de areia e os espelhos d’água estão lá”, prosseguiu.

Cavalcanti também foi questionada sobre uma pedra dentro da tubulação, e disse que ela seria própria do enrocamento que fica por trás do dissipador. 

“Então, ela não desceu na tubulação da drenagem, ela chegou lá, não sei se pelo movimento dos próprios espelhos d’água, a gente não sabe identificar como ela chegou lá, mas ela já foi retirada, porque é importante a gente dizer que aquelas fotos são de janeiro deste ano. Então, estamos em maio, a situação que se encontra lá é muito diferente do que está registrado.”

Erosão e “lagoas pútridas”

Em ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF), o órgão afirma que a drenagem em Ponta Negra foi ineficiente, e aponta que as inundações podem acelerar o processo erosivo do Morro do Careca e causar perda da faixa de areia recém-ampliada.

Para os procuradores da República Ilia Freire, Victor Mariz e Camões Boaventura, a falta de drenagem tornou-se “uma gravíssima crise socioambiental e técnica”. De acordo com o MPF. Eles defendem que “a intervenção judicial é inadiável para evitar que novas obras de urbanização consolidem um passivo ambiental irreversível.”

Sistema ineficiente e perda de areia

Estudos técnicos da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec) e da perícia do MPF constataram a ineficiência do sistema de drenagem, com tubulações falsas e galerias bloqueadas com concreto e rochas. As análises demonstraram que os 16 dissipadores existentes não cumprem a função de dispersar as águas pluviais, gerando acúmulo da água da chuva misturada à rede de esgotos, favorecendo a proliferação de vetores de doenças.

Saiba Mais: Alagamentos em Ponta Negra podem acelerar erosão do Morro do Careca, atesta MPF 

Além disso, os levantamentos enfatizam que as inundações podem acelerar o processo erosivo do Morro do Careca e causar perda da faixa de areia recém-ampliada. Os estudos indicam também que o deságue inadequado próximo à base da duna está carregando sedimentos e já causou danos físicos, como a derrubada de cercas de proteção do morro.

Em chuvas recentes, no mês de abril, uma vala foi aberta próxima ao morro, em razão da força da água das chuvas que vai de encontro ao mar, também arrastando a areia da “engorda”. A perícia concluiu que é necessária a manutenção preventiva e corretiva, sob o risco “de prejuízo financeiro vultoso pelo refazimento da ‘engorda’ e a abreviação da vida útil do empreendimento”.

Segundo o texto, os registros do Procedimento Administrativo revelam um cenário de calamidade sanitária. As vistorias da Funpec identificaram 84 pontos de saída de água na orla, dos quais 29 apresentavam fluxo constante mesmo em períodos de estiagem, indicando o lançamento ilegal de águas de piscinas e duchas de estabelecimentos privados. 

Saiba Mais: Engorda: dissipadores contêm “lagoas pútridas” em Ponta Negra

“Mais grave ainda, a identificação de águas cinzas com odor fétido em diversos dissipadores (especialmente nos 1, 2, 3, 4, 5, 7 e 8) confirma que a rede pluvial está contaminada por águas servidas. A profundidade dessas águas estagnadas chegou a 93 cm no dissipador 8, criando verdadeiras lagoas pútridas em plena área turística”, diz um trecho da ação.

Em outro ponto, o Ministério Público Federal aponta que os relatórios de junho de 2025 Programa de Manutenção, de Reparo e de Melhorias (PMRMD) consolidam a existência de uma crise sanitária, documentando águas estagnadas e pútridas nos dissipadores 7 e 8, com profundidades de até 93 cm, exalando odor de esgoto e criando focos para vetores de doenças como a leptospirose.

“Esta deficiência mantida, quando se soma a um sistema de drenagem insuficiente e falta de monitoramento da qualidade da água e dos sedimentos, pode propiciar um comprometimento significativo da balneabilidade da praia de Ponta Negra”, diz a passagem citada de um laudo técnico.

Seinfra não forneceu documentações para avaliação

O Ministério Público Federal ainda afirmou que buscou obter, por várias vezes, a documentação necessária para a avaliação técnica da drenagem que está em andamento na praia, mas a Secretaria Municipal de Infraestrutura de Natal (Seinfra) não forneceu os referidos registros. O órgão ministerial também tentou realizar extrajudicialmente a fiscalização da obra, mas não obteve êxito.

Segundo os procuradores da República responsáveis pelo caso, o município falhou ao priorizar a execução do aterro hidráulico antes da conclusão do sistema de drenagem e foi omisso na fiscalização de ligações clandestinas, na apresentação de projetos fidedignos e na manutenção dos dispositivos. De acordo com as apurações, a falta de drenagem traz prejuízos para o turismo, risco iminente à saúde pública e potencial para acelerar a erosão do Morro do Careca e reduzir a nova faixa de areia.

Pedidos

A ação pede liminarmente a execução de obras emergenciais de manutenção, limpeza e desobstrução semanal das bocas de lobo e dissipadores, com prazo de início em até 30 dias, assim como a interdição e o isolamento de áreas de risco e da base do Morro do Careca. O MPF quer a proibição de novas licenças urbanísticas até a solução definitiva da drenagem e, se a liminar for acatada, o município deverá ainda fornecer todos os documentos técnicos sobre o sistema de drenagem e dados mensais de volumetria da areia da “engorda”, em até 15 dias.

Caso as medidas sejam descumpridas, o MPF requer a aplicação de uma multa diária de R$ 5 mil. Além disso, o órgão pleiteia que a sentença estabeleça uma indenização por danos morais coletivos no valor mínimo de R$ 500 mil. O objetivo final da ação é que o sistema de drenagem seja integralmente reestruturado, com novos projetos detalhados, funcionamento pleno dos dissipadores e cronograma sistemático de manutenção preventiva e limpeza.

TCU constata fragilidades técnicas e perda de areia

Antes do MPF, um relatório de auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que a obra da engorda de Ponta Negra registrou fragilidades técnicas nos estudos de impacto ambiental e que o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema) foi obstruído de exercer o controle e o acompanhamento das condicionantes do empreendimento. Além disso, mostrou que já houve uma perda significativa de aterro hidráulico no Morro do Careca menos de um ano após a conclusão.

Saiba Mais: TCU aponta falhas e perda de aterro na engorda de Ponta Negra 

Um dos pontos diz que houve insuficiência e fragilidade dos estudos preliminares de viabilidade técnica, econômica e ambiental do empreendimento (EVTEA), dos estudos referentes a EIA/RIMA, bem como dos projetos básico e executivo. O EIA/RIMA é o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, um conjunto de documentos técnicos obrigatório para o licenciamento de atividades que possam causar impactos ao meio ambiente. Já o EVTEA verifica se os benefícios estimados justificam os custos com os projetos e execução das obras previstas.

Em outro apontamento, o documento atesta que houve prejuízos ao rito regular de licenciamento da obra de aterro por parte da Prefeitura de Natal, além de obstrução ao Idema. Ainda segundo o relatório preliminar, já há uma alta perda do aterro, bem como indícios de inadequação do material sedimentar extraído de jazida não autorizada.

Fonte: saibamais.jor.br

Duas cidades do RN voltam às urnas para eleger prefeitos neste domingo; entenda

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Duas cidades do RN voltam às urnas para eleger prefeitos neste domingo; entenda

Os eleitores dos municípios de Itaú e Ouro Branco, no interior do Rio Grande do Norte, vão às urnas em duas eleições diferentes em 2026. Além das datas em outubro (1º turno e eventual 2º turno), as cidades tiveram seus prefeitos e vices cassados por abuso de poder político e vão eleger novos gestores neste domingo, 17 de maio.

As novas eleições foram determinadas por uma resolução do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), após a cassação dos prefeitos e vice-prefeitos dos dois municípios por abuso de poder e prática de condutas vedadas pela legislação eleitoral.

Foram registradas duas candidaturas para prefeito e vice em cada município. Em Itaú, os candidatos a prefeito são Fabrício Regis, do PT, que concorre em chapa puro sangue com vice Branco Basilio (PT). O adversário é José Roberto Dias Pinheiro, o “Zé Roberto Pezão”, do União Brasil, tendo como vice Rosa Basilio, também em chapa puro sangue.

Já em Ouro Branco, a disputa envolve outra chapa petista: a candidata a prefeita Dra. Fátima, com o vice Denis Rildon, enfrenta Professor Amariudo (PP), que tem Doutor Araújo, da mesma sigla, como vice. Dra. Fátima já foi prefeita de Ouro Branco eleita em 2012 e 2016.

Ao todo, cerca de 10 mil eleitores estão aptos a votar nas duas cidades. Em Ouro Branco, pertencente à 23ª Zona Eleitoral, em Caicó, são 4.527 eleitores. Já Itaú, da 45ª Zona Eleitoral, em Apodi, possui 5.085 eleitores aptos ao voto.

Histórico

No caso de Itaú, Dr. André Júnior (PP) e Paulinho de Enoch (MDB), reeleitos prefeito e vice em 2024, tiveram seus diplomas cassados após entendimentos da Justiça Eleitoral de que houve conduta vedada e abuso de poder em dois eventos promovidos pela Prefeitura de Itaú em 2024: o evento “Dia das Mães Itauenses” e o “XVI Arraiá do Zé Padeiro”.

No evento do Dia das Mães, mais de 800 mães foram recebidas com café da manhã e concorreram ao sorteio de cerca de 300 brindes de valor significativo, com forte divulgação nas redes oficiais da Prefeitura e participação direta do prefeito, já então pré-candidato à reeleição.

No Arraiá do Zé Padeiro, o Tribunal entendeu que o show de encerramento do cantor Rey Vaqueiro, contratado por R$ 120 mil com recursos públicos, foi desvirtuado para promover pessoalmente o prefeito, em período próximo às eleições e com grande alcance junto à população.

A decisão também declarou o prefeito inelegível por oito anos em razão da prática de abuso de poder político e econômico, além de conduta vedada nas eleições de 2024.

Com a Prefeitura vaga no momento, quem assumiu interinamente o comando do Executivo foi o presidente da Câmara Municipal, Fernandes Melo (União Brasil). 

Ouro Branco

Em Ouro Branco, a cassação dos mandatos do prefeito Samuel Souto (PL) e de seu vice, Doutor Araújo (PP), ocorreu por conduta vedada, abuso de poder, uso indevido dos meios de comunicação social e abuso de poder econômico. Além da cassação, o então prefeito Samuel Souto (PL) foi declarado inelegível por oito anos. 

Samuel Souto foi o primeiro prefeito cassado no TRE-RN em 2025, entrou com recurso e foi novamente alvo do processo eleitoral. O prefeito distribuiu 436 próteses dentárias em ano eleitoral, conduta vedada pela lei eleitoral, que proíbe que no ano de eleições se institua programa social ou de distribuição de bens e benefícios sem execução no ano anterior.

Fonte: saibamais.jor.br